Três crianças como qualquer outra criança saudável: coradinhas, cheirosinhas e criativas. Brincando de pique-esconde, desvendaram todo o quintal. Conheciam cada espacinho e dificilmente errariam o palpite caso colocadas em algum lugar dali de olhos vendados. Só tropeçavam durante a cobra-cega (ou cabra-cega, sempre discutiam sobre isso) se algum adulto modificasse alguma coisa; uma caixa, uma vassoura fora do lugar, a mangueira desenrolada pelo chão.
A mais velha, 9 anos e única menina, apresentou Chiquititas aos outros dois (8 e 7 anos cada um). Não demorou muito mais que dois meses, e os três já tinham tudo planejado na cabeça. Usando o verso de uma folha de tabuada, a mais velha desenhou o mapa do quintal e os outros dois copiaram usando um kit de desenho. Fugiriam de casa na noite seguinte, logo depois do jantar, quando seus pais levariam mais tempo para notar que, de repente, o ambiente tinha ficado quieto.
Esvaziaram a mochila da escola e encheram-na de coisas realmente úteis para a jornada. Garrafinha de Yakult, Trakinas, Passatempo, um lápis e uma borracha ("sei lá, né!"), sabonete, toalha de mão, lanterna do carro do pai de alguém, uma almofada, uma tartaruga e um coelho de uma orelha em pé e outra caída.
- Você não vai levar esse coelho.
- Por quê não?
- Porque ele tem uma orelha em pé e outra caída. Ele tem cara de suspeito.
- Então você não leva essa sua tartaruga cascuda aí. Se ela roubar alguma coisa e levar pra dentro do casco dela, a gente nunca mais pega de volta.
Tudo pronto. Jantaram frango com arroz, feijão e tomate. A mais velha lia o mapa, enquanto o gordinho apontava a lanterna pra onde ela indicava. Sobe aqui, desce ali, vira à esquerda mais à frente, acabaram no telhado de casa, e dali descobriram que podiam andar pelos telhados de quase toda a vizinhança.
Se podiam, fariam. Resolveram ir pra casa da direita porque... "sei lá, né!", e descobriram uma telha solta.
- É um alçapão!
- Não é não, é um porão.
- Ai, burro. É um sotão.
- Acho que é porão.
- A gente pode morar aí dentro.
- Arranca a telha!
- Aqui. Arranca essas também.
- Pronto, eu passei! Sou mais gordo, então vocês também passam!
- Legal. Esse pode ser o nosso clube.
- Clube do Alçapão...
- É sotão.
- Porão!
- Clube de Espiões. Bota isso no mapa.
Duas horas depois, eles estavam de castigo no quarto. Enquanto ouviam o vizinho que gritava com os pais lá na sala, pensavam em quando fugiriam outra vez. O clube de espiões não poderia acabar...
Mais de dez anos depois, cada um tendo tomado o próprio rumo há algum tempo, tendo cada um vivido coisas completamente diferentes, quase não se reconheceram durante a festa de 70 anos da avó. Um deles tinha até um sotaque meio diferente de... sei lá, né.
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Crianças aleatórias em Ipanema
Câmera: LC-A+
Filme: Lomography ISO 100 |
O "Clube de Espiões" realmente existiu. Embora não tenha sido "fundado" como descrito no texto, terminou de forma bem semelhante.